Por Nestor Copeli
Quem discorda que a palavra problema desde seu nome indica que algo está errado? Independente do tamanho, grau ou circunstância, problema é sinônimo de algo ruim. Devemos saber lidar com as situações, pois problemas todos temos.
Era noite de uma quarta-feira típica de inverno, chovia muito, aliás, havia chovido durante todo o dia, sem trégua, e o frio também incomodava. Eu acabara de realizar uma entrevista no bairro Ana Rech, zona norte de Caxias do Sul, para escrever uma matéria para a faculdade. Estava com os pés congelados e molhados, além da fome, por não ter feito nenhum lanche durante a tarde. Mas, tudo estava tranquilo, nenhum problema me incomodava.
Esperei por alguns minutos o Visate, até que apontou lá adiante o ônibus que me faria ver, pessoalmente, uma cena nunca presenciada antes. Embarquei no ônibus, linha Ana Rech/Salgado Filho, rumo ao Centro. Eu ainda teria que pegar mais um antes de chegar em casa e tirar os calçados molhados, tomar um banho quente e comer algo.
Na parada localizada em frente à empresa Marcopolo é que tudo iria acontecer. Alguns passageiros embarcaram e um deles estava acompanhado de sua parceira. Eu estava bem acomodado no antepenúltimo banco do lado esquerdo do ônibus. Percebi uma movimentação estranha lá na frente e espichei um pouco o pescoço para ver melhor o que acontecia.
O rapaz que entrou acompanhado estava enfurecido, tentando agredir o motorista, este no seu lugar. O motivo, segundo os berros do rapaz - que demonstrava estar drogado - era que o motorista não queria dar carona para ele e sua mulher, grávida. Gritava chamando o motorista para a briga, insultando-o com adjetivos como “velho filho da p...”, “velho careca”, “seu m...”, e prometendo “quebrar” o velho “a pau” quando o encontrasse pela frente. Questionava se o “velho” nunca havia precisado de ajuda. O condutor aparentava ter uns 50 anos e manteve-se calmo.
A agressão não chegou a acontecer porque um passageiro, que não tinha nada a ver com a situação, pagou as duas tarifas. O casal passou a catraca, mas a indignação do rapaz não. Seguiu falando em bater, xingava em voz alta, mandava o motorista andar e este não arrancou o carro. Levantou-se de seu banco e falou que chamaria a polícia caso o revoltado não calasse a boca. Nesse momento, o rapaz pulou do banco e tentou partir novamente para cima do motorista; sua acompanhante não deixou, pedia para ele pensar em seu filho. Depois de uns 15 minutos o ônibus voltou a andar. A polícia não foi acionada e nada aconteceu para o “valente” rapaz.
Uma pessoa que trabalha de forma correta e que tem seus problemas para tratar, quase foi agredida pelo problema de outra pessoa. Uma criança que ainda não nasceu causou um enorme constrangimento dentro uma condução urbana, sem saber, por culpa de seu pai, que não tinha 5 reais para pagar o transporte.
Se antes de nascer, o filho é motivo de desculpa para o pai não ter verba nem pra pagar uma condução, devemos temer o futuro. Pois se, naquela noite, o escolhido para a culpa foi o motorista do ônibus e, amanhã, poderá ser um de nós, qual o exemplo, a educação que este pai vai dar para a criança? Devemos saber resolver os nossos problemas e não descarregar no próximo nossas raivas. Temo que, no futuro, a pobre criança que está para nascer seja um problema de todos nós, nas ruas.
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